sexta-feira, 8 de novembro de 2013

"Eu saí do Bolsa Família"


Porta de saída do principal programa social brasileiro já é uma 

realidade. Em dez anos, 1,7 milhão de famílias abriram mão do 

benefício para caminhar com as próprias pernas

Josie Jeronimo
Mais importante programa social do Estado brasileiro, o Bolsa Família completa dez anos de existência como uma iniciativa louvada não só pelo governo, como também pela oposição. Considerado imprescindível por todos os candidatos a ocupar a Presidência da República no próximo ano, o programa tem se revelado uma política pública de sucesso político, econômico e também cultural. Ajudou brasileiros a se reconciliarem com uma dívida social acumulada ao longo de séculos de uma história de exclusão, permitiu a ampliação do mercado interno e, principalmente, conseguiu sepultar de uma vez por todas a alegação de seus principais críticos de que o programa de transferência de renda estimularia os beneficiados a não procurar emprego e melhores condições de vida. Nos últimos anos, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social, milhares de famílias procuraram repartições municipais para entregar seu cartão verde-amarelo, símbolo do programa, e assinar uma declaração de próprio punho na qual afirmam que não têm “mais necessidade de receber o beneficio”. Em uma década, 1,7 milhão de chefes de família – em sua maioria mulheres – abriram mão de um benefício mensal médio da ordem de R$ 250 para caminhar com suas próprias pernas, sem ajuda do Estado.
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ISTOÉ conversou com quatro antigos beneficiários do programa que puderam se emancipar do auxílio do Estado. Ouviu relatos de famílias que conquistaram aumento de renda e qualidade de vida. As histórias de vida de bolsistas do Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste mostram que a porta de saída do programa não é um milagre, mas uma arquitetura realista quando famílias que enfrentam a pobreza em seus múltiplos aspectos – econômico, educacional, médico, social – recebem amparo e orientação para transformar vocações profissionais em fonte de renda. “Há quatro anos, fiz um curso oferecido pelo Sebrae e pelo governo do Estado e abri um ateliê em casa para artesanato. O negócio cresceu e hoje temos uma loja de joias, na avenida principal da cidade.  Nós fomos os primeiros a entregar o cartão, aqui na região. O gestor ficou admirado”, conta Osmarina Uchoa, ex-beneficiária do Bolsa Família, moradora de Pedro II, município a 200 quilômetros de Teresina, no Piauí.
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Outro ex-bolsista, Samuel Rosa Rodrigues, trilhou um caminho parecido com o de Osmarina. Era flanelinha e, com a ajuda do Bolsa Família, conseguiu montar um lava-jato. “Fiquei muito orgulhoso quando pude devolver o cartão do Bolsa Família. Eu quero que lá na frente o meu filho saiba dessa história e diga: meu pai é um lutador”, afirmou.
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A exemplo de Osmarina e Samuel, a maioria do 1,7 milhão que devolveu o cartão do programa se tornou microempreendedor individual. Atualmente, 290 mil ex-bolsistas sustentam suas famílias trabalhando no setor de serviços. Outros 760 mil receberam orientação e ajuda para conseguir microcrédito e abrir pequenos negócios. De tanto oferecer cursos aos chefes de família e permanecer com vagas abertas, o governo percebeu que focar as ações do programa nas mulheres multiplicava os resultados. Hoje, 93% dos titulares são do sexo feminino e o mercado privado começa a oferecer cursos às beneficiárias.
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Entre tantos passos intermediários na consolidação do programa, tem-se como certo que em 2006, quando teve início a formação do Cadastro Único, para verificar a situação social das famílias de todo o País, foi possível atravessar uma fronteira capaz de separar o assistencialismo convencional daquilo que se considera uma política social atualizada e efetiva, cuja base é um esforço pela autonomia dos cidadãos e não pela preservação de sua dependência. O coordenador-executivo da ONG Articulação pelo Semiárido (ASA), Naidson Baptista Quintella, cita o exemplo das cisternas para lembrar como a articulação do Ministério do Desenvolvimento Social e Integração Nacional consegue mudar a vida de famílias que vivem em áreas de seca severa. Com os recursos do Bolsa Família, que variam de R$ 70 a R$ 306, a família sai de uma situação de mendicância e de mazelas – às vezes incuráveis – que afeta a vida de cada um de seus membros. O acesso à água faz o beneficiário começar a sonhar em cultivar ou criar algo em suas terras para sustento da família ou gerar renda. “Antes, nos períodos de estiagem, nós sempre nos deparávamos com filas de pedintes e saques em armazéns,” lembra Naidson Quintella. Outro elemento notável é de natureza política. Impessoal, acessível a toda família que preenche um conjunto de requisitos idênticos, sem distinção de qualquer tipo, o programa também contribuiu para a derrocada dos coronéis que sempre dominaram a política das regiões mais atrasadas do País – quase sempre, as mais miseráveis – por meio da distribuição de favores de sobrevivência em troca de votos e de submissão política. Embora tenha se transformado numa alavanca poderosa para a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva, no plano local o benefício não tem nome nem rosto. “É um crédito em conta, que não se vincula a ninguém,” afirma Naidson Quintella.
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Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgado este ano aponta que R$ 1 de aplicação no Bolsa Família gera crescimento de R$ 1,78 no Produto Interno Bruto (PIB). Não é de surpreender, assim, que nos anos de 2007 e 2008, quando a economia brasileira registrou grande expansão, com aumento de capital circulante, o número de beneficiários do programa sofreu redução. Um dos pioneiros na criação do Bolsa Família, o economista Ricardo Henriques, coordenador do grupo que criou o benefício, afirma que o movimento é circulante. “É mão dupla. O programa impacta a economia e a economia impacta o programa. A economia aquecida pode gerar o impacto do aumento de renda.”
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Nas regras de concessão do Bolsa Família, não existe tempo-limite para o recebimento do benefício. As famílias podem ficar o tempo que necessitarem. Mesmo assim, o governo segue oferecendo cursos de capacitação para tentar abrir portas a quem teve poucas oportunidades. Até agora, só 5% dos beneficiários terminaram algum tipo de qualificação profissional proporcionado pelo governo. Na pasta de Educação, o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e ao Emprego (Pronatec) oferece cursos especialmente direcionados aos bolsistas. Das 918 mil vagas abertas a beneficiários do Bolsa Família, 753 mil foram preenchidas. As letras e os números ainda assustam num universo em que 25 mil dos beneficiários se declaram analfabetos. Henriques conta que, durante a criação do programa, o objetivo de longo prazo era dar educação aos filhos de famílias comandadas por pais que não tiveram nenhuma educação formal. “O programa tem três dimensões: o impacto imediato da garantia alimentar, a transferência de renda para famílias e territórios e o impacto de longo prazo, que é a mudança da trajetória educacional de crianças filhas de pais analfabetos.” Sempre que ouve a observação de que muitas pessoas demoram para encontrar a porta de saída, o sociólogo Quintella rebate: “As pessoas vão caminhando em seu próprio tempo, não no tempo ditado pelos gabinetes. É uma tarefa para uma geração”.
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Foi caminhando no seu próprio ritmo que Iolanda Silva, moradora da periferia de São Paulo, conseguiu mudar de vida. Depois de perder a guarda dos filhos, por falta de condições para sustentá-los, cadastrou-se no Bolsa Família e usou o dinheiro para reconstruir sua vida. “Consegui ter os meus cinco filhos de volta. O benefício do Bolsa Família ajudou muito. Todos os meus filhos estão estudando e o meu sonho, agora, é fazer um curso de enfermagem e melhorar minha renda”, disse.
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A socióloga Amélia Cohn lembra que o Bolsa Família não faz parte do texto constitucional, por isso, as reservas orçamentárias do programa dependem exclusivamente da vontade do presidente em exercício, o que muitas pessoas consideram preocupante. A necessidade de garantir o Bolsa Família na Constituição voltou à agenda política depois que, em julho deste ano, rumores sobre o cancelamento do programa produziram uma corrida aos terminais eletrônicos da Caixa Econômica Federal. Em um fim de semana, R$ 152 milhões foram sacados. A Polícia Federal e a Caixa Econômica – banco que faz a gestão financeira do programa – foram acionadas para rastrear a origem do boato e possíveis falhas que permitiram os saques antecipados de benefícios, mas até hoje não conseguiram explicar exatamente o que motivou o desespero de mais de 900 mil pessoas.
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 ISTO É

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Substância de coral destrói superbactéria hospitalar em testes


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DIANA BRITO
DO RIO

Uma das superbactérias mais resistentes a antibióticos, a KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase) acaba de ganhar um novo adversário: o coral orelha-de-elefante (Phyllogorgia dilatata).
A espécie, que existe apenas na costa brasileira, é a primeira nas águas da América do Sul a apresentar capacidade de controle desse microrganismo, encontrado em ambiente hospitalar.
Há relatos de moléculas extraídas de animais marinhos, corais e esponjas que combatem outros tipos de bactérias, mas não a KPC.
Causadora de infecção pulmonar, a KPC matou ao menos 106 pessoas no país em 2010 e 2011, segundo o último levantamento do Ministério da Saúde. A maioria dos casos foi registrada na região sudeste (64) e sul (12).
Responsáveis pelo estudo, pesquisadores da pós-graduação de Ciências Genômicas e Biotecnologia da UCB (Universidade Católica de Brasília) e do Projeto Coral Vivo selecionaram seis espécies de corais para testes.
"A escolha foi feita pelas características desses animais, que sobrevivem à alta competitividade nos ambientes marinhos, possivelmente por possuírem barreiras químicas. Mas ainda não sabemos se a substância que combate a KPC é do coral ou de uma bactéria que vive associada a ele", diz o biólogo Clovis Castro, coautor da pesquisa e coordenador do Projeto Coral Vivo, ligado ao programa Petrobras Ambiental.
"Nos testes percebemos que o orelha-de-elefante tinha mais potencial [no combate à superbactéria] do que os demais", disse Loiane Alves de Lima, que apresentou o estudo no mestrado na UCB.
"Também vamos fazer testes contra vírus e fungos. A descoberta pode ter potencial ainda maior", disse a bióloga molecular Simoni Campos Dias, da UCB, que orientou Loiane Lima.
A descoberta foi publicada na revista "Protein & Peptide Letters", voltada para estudos de bioquímica. O levantamento começou em 2009 com material recolhido em Porto Seguro (BA).
Pedaços de diferentes colônias da espécie foram triturados e passaram por processo de purificação até a separação da substância de combate à superbactéria.
Testes in vitro indicaram que após 12 horas, toda da população de KPC fora exterminada pela proteína do coral.

Editoria de Arte/Folhapress
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"Esse pode ser um candidato promissor a um novo antibiótico para atuar contra a KPC e outras bactérias resistentes", afirmou Simoni Dias.
Detectada pela primeira vez nos EUA em 2001, a KPC chegou ao Brasil em meados de 2005. De acordo com o diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia Marcos Cyrillo, sua incidência decuplicou nos últimos cinco anos. "De 100 amostras de Klebsiella pneumoniae (bactérias do trato gastrointestinal) analisadas há cerca de cinco anos, 2% eram KPC, ou seja, multirresistentes. No último ano, constatamos que esse número subiu para 20%", destaca.
Os pesquisadores contam que o composto será clonado dentro de leveduras para que seja possível produzir o princípio ativo em grande escala.
Para que o medicamento seja fabricado, no entanto, ainda há necessidade de testes em animais e humanos, além da aprovação dos órgãos competentes, o que pode demorar até 10 anos.
Além da KPC, a proteína combate outras duas bactérias hospitalares resistentes: a Staphylococcus aureus e a Shigella flexneri.
A espécie está ameaçada de extinção devido à coleta predatória para venda em aquários e lojas de souvenires. O projeto Coral Vivo vem estudando a espécie com o objetivo de criar um projeto de cultivo do organismo.

sábado, 2 de novembro de 2013

As lições dos mais fortes


Estudos científicos decifram mecanismos psicológicos e 

cerebrais que levam uma pessoa a se recuperar melhor e mais 

rapidamente do sofrimento. E apontam os caminhos para

 desenvolver essa capacidade

Mônica Tarantino
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Alvo de interesse da psicologia e, mais recentemente, da neurociência, a capacidade de superar as adversidades da vida (dos conflitos e guerras às chateações domésticas e profissionais) com o mínimo de desgaste é um campo de estudo em expansão. O que se quer saber é por que alguns indivíduos se recuperam mais rapidamente do que outros e parecem ter uma habilidade natural de superar traumas e obstáculos com maior facilidade e menos sofrimento. E é exatamente isso o que começam a revelar as novas pesquisas, apontando finalmente quais são os segredos dos mais fortes. O conjunto de descobertas está trazendo à tona desde caminhos da mente humana a serem explorados para fortalecer o potencial de cada um de vencer problemas até a presença de proteínas no sistema nervoso que interferem nas nossas reações diante das ameaças.
A primeira evidência obtida pela investigação científica é a de que os mais fortes não formam uma população muito numerosa. Um estudo inédito conduzido pela seccional brasileira da Associação Internacional para o Gerenciamento do Stress, a ISMA-BR, mostrou que apenas 23% de um total de 1.050 executivos testados quanto à sua capacidade de manter o foco, a clareza de raciocínio e equilíbrio emocional em situações extremas pertencia realmente ao time dos mais resistentes.
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A psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da ISMA-BR, que coordenou o trabalho, quis saber mais sobre características dos que se saíram melhor. “A maioria tem elevada autoestima (93%), autocontrole (86%), maior flexibilidade para lidar com as mudanças (81%) e objetivos definidos (72%)”, disse a psicóloga. Os membros desse seleto grupo são chamados de resilientes. Na definição científica, resiliência é a capacidade de se adaptar às situações para superar as adversidades com menor nível possível de estresse.
Um dos trabalhos mais recentes e sólidos para desvendar o que se passa na mente desses indivíduos foi feito pelos psiquiatras Steven Southwick, da Universidade de Yale, e Dennis Charney, do Hospital Monte Sinai, ambos nos Estados Unidos. Eles entrevistaram sobreviventes de situações de intensa tensão, como mulheres expostas à violência e abuso sexual, membros das forças especiais da Marinha (os SEALs, treinados para agir em circunstâncias muito perigosas), combatentes que foram prisioneiros na guerra do Vietnã, vítimas de terremoto e a população pobre de um subúrbio de Washington. Todos tinham traços comuns de personalidade que os fortaleciam diante do inesperado. A primeira habilidade verificada pelos pesquisadores é a de identificar claramente os desafios e vislumbrar sucesso na tarefa. Pesquisadores da Universidade de Taiwan, na Ásia, definem essa característica como otimismo realista, uma associação bem balanceada da visão positiva do mundo com boas doses de realismo. “Em combate, por exemplo, ter um otimismo irreal pode te matar”, diz Charney.
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Ser fiel às próprias convicções foi outro achado dos psiquiatras. Eles ficaram impressionados com a importância desse arcabouço moral para os prisioneiros de guerra. “Mesmo sob tortura, eles permaneciam ligados a algo maior, que os mantinha unidos”, observou Southwick. Os americanos concluíram ainda que o altruísmo, a religião e a coragem para enfrentar os medos também compõem a matéria-prima dos mais fortes.
Tão importante quanto a identificação dessas particularidades foi a conclusão dos cientistas de que é possível aumentar a resiliência. Segundo Charney, isso pode ser feito, por exemplo, com a terapia cognitivo-comportamental. O método procura transformar a maneira como a pessoa pensa e se sente diante de situações que provocam comportamentos indesejados ou mal-estar para mudar suas reações a elas. Mas os pesquisadores acreditam que a força para vencer as dificuldades começa a ser semeada na infância, quando a criança precisa lidar com desafios proporcionais à sua idade. “Na verdade, você está moldando a forma como os hormônios do estresse e o sistema nervoso da criança responderão no futuro. Isso afetará a forma como ela se comportará perante situações duras na idade adulta”, diz Charney. O psiquiatra George Barbosa, presidente da Sociedade Brasileira de Resiliência, concorda. “É como ser alfabetizado, algo que se aprende. Na França, por exemplo, há debates em sala de aula para discutir como enfrentar adversidades na vida”, diz.
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Reforça a tese de que encarar algumas frustrações contribui para aprimorar as respostas aos problemas um trabalho conduzido por um time de universidades americanas e liderado por Mark Seery, da Universidade de Buffalo. Os cientistas acompanharam por três anos 2.398 indivíduos. Parte deles acabou exposta a um menu variado de fatalidades como catástrofes climáticas, acidentes, doenças e divórcio. No final, Seery concluiu que aqueles que passaram por algumas dessas circunstâncias, de forma esporádica, demonstravam mais saúde mental e bem-estar do que aqueles que tinham passado por muitos e fortes traumas e do que as pessoas que não haviam sofrido nada. “Usamos critérios como os sinais da angústia global, estresse pós-traumático e satisfação com a vida”, disse Seery à ISTOÉ. Engana-se quem acha que ele constatou o óbvio. “A exposição gradual e constante ao estresse pode levar ao desenvolvimento de uma resistência maior. Isso resulta em alterações psicológicas e fisiológicas que permitem aprender a lidar bem com as dificuldades”, explica Seery.
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De fato, o que a ciência já comprovou é que o cérebro é capaz de modificar seu funcionamento de acordo com os estímulos que recebe. Isso significa dizer que, dependendo das circunstâncias externas, o cérebro pode reforçar um circuito de neurônios que nos incentiva a reagir ou outro que, ao contrário, nos leva a nos entregar. Daí, por exemplo, a importância salientada pelos americanos Southwick e Charney de deixar as crianças se exporem a um pouco de frustração. É como se fosse uma terapia de exposição gradual a algo contra o qual seu organismo pouco a pouco fabricará anticorpos. A neuroplasticidade – essa habilidade de o cérebro se reconfigurar segundo os estímulos que recebe – também ajuda a explicar a eficácia da terapia cognitivo-comportamental. Ao treinar sistematicamente a adoção de um novo padrão de pensamento – como enxergar aspectos positivos e vislumbrar oportunidades de ação onde antes só se via o lado ruim e impossibilidades –, um novo circuito neuronal será formado, gravando esse raciocínio. No futuro, em situações semelhantes, esse caminho de neurônios será acionado, auxiliando o indivíduo a dar uma resposta mais assertiva ao problema.
Esse tipo de análise está descortinando um universo de possibilidades para aumentar a resiliência de cada um a partir de intervenções na fisiologia cerebral. Além de estudar como usar a maleabilidade do órgão a nosso favor, a ciência está começando a identificar substâncias em sua química que influenciam o quanto uma pessoa resistirá melhor ou pior ao sofrimento. Um dos estudiosos do assunto é o psiquiatra Olivier Berton, da Universidade da Pensilvânia (EUA). Partindo do reconhecimento de que alguns indivíduos recuperam mais rapidamente suas habilidades sociais e de raciocínio após um trauma, ele decidiu investigar as bases moleculares dessa diferença.
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Ao estudar o cérebro de ratos que se mostravam naturalmente mais resistentes a estímulos estressantes, verificou que apesar de terem grandes quantidades da proteína HDAC6 no cérebro, ela atuava com menos intensidade sobre um grupo de neurônios relacionados ao humor e às emoções em comparação ao que ocorria com outros animais do experimento. “Essas cobaias parecem ter desenvolvido uma forma de reduzir o efeito dessa proteína, protegendo seletivamente algumas células nervosas de sua ação indesejável”, disse Berton à ISTOÉ. Para testar a hipótese, ele reduziu, por meio de modificações genéticas, a quantidade da substância sobre certos neurônios de cobaias. “Elas se tornaram menos vulneráveis e mais resilientes”, diz o especialista. A constatação levou ao desenvolvimento de drogas, agora em teste, para bloquear a ação da HDAC6. “Algumas dessas moléculas poderão ser ministradas por via oral e oferecem uma proteção impressionante contra o estresse, além de potencializar o efeito de remédios antidepressivos clássicos”, diz o pesquisador. “Falta muito para confirmar o potencial terapêutico dessas novas drogas, mas são os primeiros estudos desse tipo e os resultados são emocionantes.”
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AUXÍLIO
Na empresa em que trabalha, Paulino treina profissionais
para que lidem melhor com as mudanças
 
Outra proteína na mira da ciência que pode ajudar a explicar o que torna uma pessoa mais equilibrada diante dos problemas é o fator de crescimento neural (SNGF, sigla em inglês). Trata-se de uma substância ligada à sobrevivência, ao desenvolvimento e à atividade das células nervosas. Maiores quantidades estão relacionadas a menores níveis de emoções negativas durante confrontos. “Ela está envolvida nas respostas imediatas ao estresse agudo. Ainda não estudamos seu papel sob o estresse prolongado”, disse à ISTOÉ a psicóloga Heidemarie Laurent, da Universidade de Oregon. A cientista avaliou a atividade da molécula em 40 adultos durante discussões com seus parceiros românticos. “É possível que a proteína seja uma parte importante do quebra-cabeça que é entender a resiliência”, disse à ISTOÉ Doug Granger, da Universidade do Arizona. Ele coordenou o estudo e criou um teste de saliva capaz de quantificar a substância. Os pesquisadores observaram também que jovens submetidos a treinamento militar que possuem maiores níveis de SNGF apresentam mais resistência e melhor saúde mental. “Uma das coisas que fazem a SNGF tão diferente é que ela está associada a atributos positivos. Em vez de ser um marcador de risco, SNGF tem potencial para ser um marcador do índice de resiliência”, explica Granger.
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CARACTERÍSTICAS 
A psicóloga Ana Rossi estudou por que alguns são mais fortes do que
outros. Entre outras coisas, descobriu que essas pessoas têm mais
autocontrole e flexibilidade para administrar as dificuldades
O conceito de resiliência também está passando por uma ampliação. “Ele deve levar em consideração as condições de vulnerabilidade em que a pessoa vive”, explica a psicóloga Sandra Baron, da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Ela é uma das criadoras da Rede Resiliência, articulação que reúne diversos laboratórios de pesquisa para estudar o tema. Na faculdade, Sandra pesquisa o impacto da arte no resgate da capacidade de se tornar mais forte. “É um meio de colocar para fora marcas profundas que precisam ser trabalhadas de alguma maneira”, diz. Um dos projetos que contemplam essa visão é a Orquestra de Cordas da Grota do Surucucu, em Niterói, projeto social iniciado pela professora aposentada Octávia Selles em 1995. Por meio da música, dezenas de jovens conseguiram construir alicerces firmes para suplantar as circunstâncias difíceis em que cresceram. “Muitos hoje são professores de música em escolas e em outros projetos como o Afroreggae”, diz a musicista Lenora Mendes.
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Os novos conhecimentos sobre o tema começam a gerar aplicações no mundo dos negócios. Na empresa Ticket, por exemplo, a diretora de RH Edna Bedani criou cursos para melhorar a habilidade de pessoas que lideram grupos em lidar com imprevistos e mudanças. “São dinâmicas para aprimorar as respostas diante dos problemas”, diz. Na Whirlpool (reúne as marcas Brastemp, Consul e KitchenAid), a percepção do executivo Paulino Hashimoto, 57 anos, formado em relações públicas, levou-o a se tornar um especialista em gerenciamento de mudanças, o que envolve a cultura e os valores da companhia. Em anos de trabalho, ele desenvolveu um método para auxiliar áreas inteiras da empresa a lidar com as constantes transformações na atividade e no modo de trabalhar. “As pessoas que optam por participar dos processos sugeridos percebem que algo se modifica no seu jeito de encarar o novo. Elas entendem pelo que irão passar, da resistência à aceitação”, conta Paulino. “Num mundo que muda cada vez mais rápido, é necessário estimular a capacidade de se adaptar sem sofrer”, conclui. ISTOÉ

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Dilma diz que foco em qualidade de vida representa "o novo" no País


Presidenta anunciou R$ 13,5 bilhões em recursos para 

saneamento básico e pavimentação

Terra
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A diferença entre a velha e a nova política foi tema de discursos durante lançamento de R$ 13,5 bilhões em investimentos em saneamento e pavimentação, em evento no Palácio do Planalto. A uma plateia de prefeitos, a presidente Dilma Rousseff disse que "o novo" no Brasil precisa atender diferentes áreas, mas focando sempre na qualidade de vida da população.

"De fato, o novo é uma visão que o Brasil precisa simultaneamente atacar novas áreas, mas tendo um foco. Vai de saneamento até petróleo, vai de médico até pavimentação, mas tem um foco que é que nós temos de garantir qualidade de vida e isso significa serviços públicos e infraestrutura para a nossa população", disse a presidente para uma plateia de prefeitos.

Dilma discursou depois do ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro. Sem citar as eleições de 2014, Aguinaldo falou que em breve o Brasil assistiria a "um dos mais velhos antigos e bolorentos debates no nosso País". "Um debate sobre o que é novo e o que é velho na vida publica brasileira", disse.

A "nova maneira de fazer política" é uma das apostas da ex-senadora Marina Silva, que se filiou ao PSB de Eduardo Campos, possível adversário de Dilma Rousseff em 2014.

"Primeiro na segunda-feira tivemos o leilão do campo de Libra e com ele quebrou-se o velho paradigma do País entre a privataria e o estatismo. Com o modelo de partilha, o Brasil transpôs o modelo do velho e inaugurou o novo. Mostrou que é possível respeitar o interesse brasileiro e atrair o capital. O velho era o empreguismo, a xenofobia. O novo é conciliar o publico e privado a serviço de ambos", disse o ministro.

Investimentos

A presidente da República, Dilma Rousseff, anunciou nesta quinta-feira R$ 13,5 bilhões de investimentos em saneamento e pavimentação para 1.198 municípios, sendo R$ 10,5 bilhões só para saneamento. As obras fazem parte da segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Na área de saneamento, os recursos vão para obras de sistemas drenagem de águas pluviais, rede de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Os recursos serão destinados para pavimentar 7,5 mil quilômetros de vias e ciclovias, além de 15 mil quilômetros para calçadas e sinalização para acessibilidade e pedestres.

Durante o evento, o governador de Rondônia, Confúcio Moura, disse que a cobertura de esgoto em seu Estado passará de 2% para 60%. "Se não fosse esses recursos do governo federal, seria muito difícil para os prefeitos sem capacidade de investimento fazer", disse.

domingo, 20 de outubro de 2013

Centro-Oeste: maior taxa de crescimento do Bolsa Família, em 10 anos


Nordeste, contudo, recebe quase metade da verba atualmente. Governo estima que, em todo o país, pelo menos 600 milhões dos que vivem em condições de extrema pobreza ainda não foram assistidos pelo programa
Publicação: 20/10/2013 08:00 Atualização: 20/10/2013 11:31
Centro-Oeste: maior taxa de crescimento do Bolsa Família, em 10 anos ()
Centro-Oeste: maior taxa de crescimento do Bolsa Família, em 10 anos ()

Em 10 anos, o número de famílias assistidas pelo programa Bolsa Família aumentou em todas as cinco regiões do país e o Nordeste recebe, atualmente, 49% dos 19,5 bilhões que o governo destinou ao programa este ano. O Centro-Oeste, contudo, apresenta a maior taxa de crescimento do programa, entre as regiões brasileiras. Aqui, o número de famílias aumentou 521% e os valores repassados às pessoas em situação de pobreza na região aumentaram em 4570%. A média nacional dessas variações, entre 2003 e 2013, foi, respectivamente 282% e 3150%.

Em números absolutos, contudo, o Nordeste continua liderando o programa, com cerca de 7 milhões de famílias e repasses de mais de R$ 9,6 bilhões. Apenas no estado da Bahia, os últimos dados mostram que o 1,7 milhão de cadastrados no programa supera o número de adesões feitas no Centro-Oeste, Norte e Sul do Brasil. O Centro-0este atende, atualmente, aproximadamente, 751 mil famílias, com orçamento regional de R$ 932 milhões.



Apesar do crescimento, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) explica que pelo menos 600 milhões dos que vivem em condições de extrema pobreza no Brasil ainda não foram assistidos pelo Bolsa Família. Segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, 6,3% da população brasileira vive em condições de extrema pobreza - famílias com renda domiciliar per capita de até R$ 70.



Ao todo, cerca de 13,8 milhões de famílias - quase 50 milhões de pessoas - receberam o auxílio em todo o país, de acordo com os dados mais recentes. Já o número dos que deixaram de receber o auxilio por conta do aumento da renda per capita chegou a 1,7 milhão, entre 2003 e 2013, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS).

O valor médio do benefício também cresceu. No primeiro ano do programa, o auxílio era de R$ 73,70; em setembro deste ano, o valor passou para R$ 152,35. De acordo com o MDS, o orçamento do Bolsa Família previsto para 2013 é de R$ 24 bilhões.

DF e Entorno


No primeiro ano do Bolsa Família, 2.060 famílias foram assistidas no Distrito Federal. Dessas, 45 ainda recebem o benefício. Em 10 anos, 11.588 famílias do DF deixaram de receber o auxílio, pois tiveram um aumento na renda per capita. Apesar do número de evasão, cerca de 88.289 de famílias ainda dependem do auxílio do programa.

Entre as 19 cidades do Entorno, Águas Lindas é a que tem o maior número de cadastrados no programa - 14.126 famílias. A segunda colocada é Luziânia, com 13.665 beneficiados, seguida de Valparaíso (8.873) e Formosa (7.882).

sábado, 19 de outubro de 2013

A geração que vai mudar o mundo


Pesquisa realizada em 27 países revela que os jovens de hoje

 apostam no poder da tecnologia, acreditam que podem fazer a 

diferença e são muito otimistas. Saiba como eles estão 

transformando a maneira de se relacionar, trabalhar, fazer 

política e negócios

Rodrigo Cardoso, Mariana Brugger e Andres Vera
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Aos 23 anos, a paulista Lala Rudge é referência para adolescentes e garotas na sua idade com dicas de moda, beleza e life style pela internet. Ela começou a postar fotos de si própria no Instagram e em um blog há três anos. Hoje, é seguida por quase 400 mil pessoas na rede social de fotos e seu diário 
virtual recebe 80 mil visitas diárias. O blog possui dez anunciantes e, para ter um banner estampado nele por um mês, a empresa interessada tem de desembolsar entre R$ 5 mil e R$ 30 mil. Com o sucesso, Lala abandonou a faculdade de direito e é disputada por grifes de moda para prestigiar eventos e desfiles.  
Eles são otimistas, acreditam que podem fazer a diferença, têm espírito empreendedor e são ultraconectados. Também podem ser descritos como narcisistas, excessivamente confiantes e um tanto mimados. O retrato dos jovens nascidos entre os anos 1980 e 2000 depende do ângulo escolhido e da lente utilizada. Mas a juventude de hoje, que cresceu embalada pela maior revolução tecnológica dos últimos tempos, a internet, vem transformando o seu tempo com uma eloquência que não se via desde os anos 1960 e 1970, quando a garotada fez barulho pela liberdade sexual e contra os regimes ditatoriais e as guerras. Educados sob o lema “yes, you can” (sim, você pode), interligados pela rede mundial onde compartilham ideais e ambições, eles estão mudando a forma de se relacionar, trabalhar, fazer política e negócios. 

Uma pesquisa feita em 27 países, inclusive o Brasil, com 12 mil jovens de 18 a 30 anos traçou o perfil da Geração Milênio. Salta aos olhos a crença no poder da tecnologia (leia quadro), capaz, na visão deles, de transpor barreiras de linguagem, de facilitar a conquista de um novo emprego e até de reduzir as diferenças sociais. Na enquete, intitulada Telefónica Global Millennial Survey, encomendada pela multinacional de telecomunicações espanhola, os brasileiros se destacam pelo otimismo: 81% acreditam que os melhores dias do País estão por vir, contra 67% da juventude no mundo, e 87% esperam ter dinheiro o suficiente para se aposentar de forma confortável – a média mundial ficou em 61%. Também vale ressaltar que 80% dos nossos jovens creem que podem se destacar na sua comunidade (no mundo o percentual ficou em 62%) e apostam no empreendedorismo. Para 47% dos brasileiros entrevistados, ser dono do próprio negócio é muito importante, contra 22% na média geral. “Essa geração quer mudar o mundo como o Mark Zuckerberg, do Facebook, criando algo grande e ganhando muito dinheiro”, resume a psicóloga Maria Célia Lassance, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
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A estudante de moda Jordana França é um exemplo do jovem empreendedor. Aos 22 anos, nunca pensou em ter patrão. Recém-chegada de um intercâmbio na Itália, ela acaba de inaugurar, com o apoio financeiro da família, seu primeiro empreendimento, a loja de roupas de ginástica Move Fitwear. “Preciso ser um sucesso. E rápido”, diz. Jordana toca o negócio que fatura cerca de R$ 30 mil por mês, mas também gosta de fazer as vezes de modelo e posta fotos de si própria no Instagram da loja. Os planos para o futuro já estão delineados: “Em seis meses quero abrir outra unidade, lançar minha coleção de peças e vendê-las pela internet”.

“Há um desejo muito grande de se arriscar longe do caminho convencional traçado dentro de uma empresa”, diz Marcela Butazzi, consultora da MB Coaching especializada em carreira para jovens. Em seu escritório, Marcela ouve queixas diante da promoção rápida que não veio ou do salário que não cresceu exponencialmente. “Antigamente, o sujeito primeiro acumulava experiência no mercado. Hoje, ele quer experiência e reconhecimento simultâneos”, explica. Em 2012, uma pesquisa da agência de recrutamento Cia de Talentos sondou 40 mil jovens em todo o País. O sonho de 56% dos entrevistados era não ter patrão e metade revelou a intenção de montar uma empresa no prazo máximo de seis anos. 
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O desejo de tornar-se uma marca é outra característica desta geração. Jovem, bonita e bem-nascida, a paulista Lala Rudge, 23 anos, virou referência para adolescentes e garotas da sua idade ao dar dicas de moda, beleza e life style pela internet. Ela começou a postar fotos dela mesma no Instagram e em um blog há três anos. Hoje, seu diário virtual recebe 80 mil visitas diárias. Para ter um banner estampado nele por um mês, a empresa interessada tem de desembolsar entre R$ 5 mil e R$ 30 mil. Lala, que deixou a faculdade de direito para desbravar o mundo virtual, possui dez anunciantes. Os convites recebidos constantemente para figurar na primeira fila de desfiles são um termômetro da sua influência. Grifes como Cris Barros, Mixer e Daslu, entre outras, fazem questão da presença dela em seus eventos.
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 Mesmo gigantes do varejo, como a Riachuelo, estão de olho nas blogueiras fashion. No fim do ano, a marca irá lançar uma coleção assinada por dez personalidades da moda, entre elas duas blogueiras. “Elas são grandes formadoras de opinião”, afirma Marcella Kanner, gerente de marketing da Riachuelo. “Temos um núcleo de mídias sociais que acompanham, entre outras coisas, blogs e sites dessa turma.” Para Veranise Dubeux, da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro, pesquisadora desse público nas áreas social e de consumo, a juventude atual tem uma maneira peculiar de lidar com a pressão para se destacar e ainda ter qualidade de vida. “Ela compartilha isso usando a felicidade como meio de promoção, mostrando sempre coisas agradáveis nas redes sociais.” É nessa passarela que Lala desfila. Seu Instagram é seguido por 396 mil pessoas. “Jovens como eu não querem trabalhar para os outros”, diz ela, hoje dona de uma grife de lingerie localizada no badalado shopping Iguatemi, em São Paulo.
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Carreiras tradicionais em grandes empresas continuam atraindo os profissionais do futuro, mas a relação entre o jovem talento e o chefe experiente mudou drasticamente. Flexibilidade de horários, plano de carreira e maior acompanhamento profissional são fatores decisivos na hora de preencher vagas. Uma pesquisa da Amcham, a Câmara Americana de Comércio, ouviu 87 gestores de recursos humanos e mostrou que 34% deles já haviam criado algum plano específico para reter funcionários da Geração Milênio. Este mês, 8.185 brasileiros até 31 anos foram entrevistados pela Clave Consultoria de Recursos Humanos e o LAB SSJ, consultoria especializada em soluções de aprendizagem corporativa, que queriam entender o que esses profissionais procuram na hora de escolher uma empresa e o que os faz permanecer nela. O estudo, intitulado “Atração e Retenção de Jovens”, mostrou que os fatores mais importantes para a atração dessa mão de obra são a boa perspectiva na carreira futura (69,3%) e a possibilidade de desenvolver novas habilidades (60%). O que retém esses jovens são os desafios constantes e responsabilidades relevantes (39,1%) e a existência de um gestor que os apoie e lhes dê autonomia para realizar o trabalho (31,1%).
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 Hoje, é comum ver empresas oferecendo acompanhamento profissional a pessoas de 25 anos. “Os dilemas foram antecipados”, explica a consultora Adriana Marques, da Sociedade Brasileira de Coaching. “Quanto mais possibilidades de carreiras, maior é a quantidade de dúvidas e menor o comprometimento com a companhia.” Uma das marcas da Geração Milênio é não temer as novas experiências profissionais. Estatisticamente, eles tendem a permanecer em uma empresa por dois ou três anos, enquanto os Baby Boomers, seus pais, ficavam entre cinco e sete anos, de acordo com a pesquisadora americana Peg Streep, que irá lançar um livro sobre o tema em dezembro.

O engenheiro carioca Augusto Acioly, 29 anos, formado há quatro, está em seu quarto emprego. Há três meses, conseguiu realizar o sonho de viver no Exterior e foi morar em Milão, na Itália. Funcionário da multinacional francesa Anotech Energy, ele presta consultoria a uma gigante italiana do ramo petrolífero. Antes, trocou três vezes de patrão. Ficou seis meses no primeiro emprego, depois passou dois anos em uma empresa de onde saiu para ganhar três vezes mais. A experiência, porém, durou apenas oito meses. “Saí porque o chefe não enxergava que poderíamos crescer juntos, como alguém que pode agregar. Quando vi que não teria espaço para crescer, procurei outro lugar”, diz. “Uma das mudanças possibilitou que eu adquirisse experiência em gerenciamento, pois sempre havia atuado na parte técnica da profissão.” Como não poderia deixar de ser, quase todas as oportunidades de trabalho de Acioly surgiram via Linkedin, a rede social profissional.
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Na pesquisa da Telefónica, temas como educação e desigualdade social também estão em alta na cartilha de interesses da Geração Milênio brasileira. Esses dois fatores foram citados como os que mais afetam o País e receberam 24% dos votos, seguido de saúde, com 17%. Não surpreende, então, que nas manifestações de junho – todas coordenadas pelas redes sociais – as principais bandeiras fossem melhorias no ensino, na saúde e no transporte. Muito antes dos protestos, a estudante catarinense Isadora Faber, 14 anos, já denunciava a precariedade do sistema educacional público do País. No ano passado, ela ganhou notoriedade ao criar a fanpage Diário de Classe, no Facebook, na qual mostrava como funciona uma escola pública na visão de quem a frequenta. Seus posts ecoaram pelo País e a colocaram no centro das atenções. “Se não fosse a internet talvez eu não tivesse feito nada”, diz ela. Com a repercussão, a casa da adolescente foi apedrejada e ela recebeu uma ameaça de morte. 

Isadora, porém, seguiu em frente e, hoje, é referência para empresários, educadores e gestores públicos que frequentam as palestras dela pelo País. No mês passado, a estudante catarinense lançou o site de sua ONG que, entre outras propostas, servirá de canal de denúncias sobre a situação de escolas de todo o Brasil. A postura de Isadora está alinhada com o pensamento de 54% dos brasileiros ouvidos na pesquisa da Telefónica, para quem melhorar o acesso e a qualidade da educação é uma maneira de fazer a diferença no mundo. “A maioria dos jovens de hoje quer resolver questões sociais que, eles acreditam, foram deixadas pelas gerações anteriores”, afirma o sociólogo Ronald E. Riggio, professor de liderança e psicologia organizacional da Claremont McKenna College, na Califórnia.
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Da mesma forma, a questão ambiental tem um apelo inédito para a juventude. Proteger o meio ambiente é citado por 45% dos brasileiros como a maneira de fazer a diferença mundialmente e 70% acreditam que a questão da mudança climática é muito urgente. O pernambucano Lucas Tiné, 21 anos, tornou-se ativista ambiental três anos atrás, em meio à discussão da votação do novo Código Florestal. Depois de alguns debates via internet, ele e o grupo que criou decidiram ir às ruas do Recife fazer coleta de lixo e educar a população sobre a causa. “Percebi uma destruição do meio ambiente gigantesco em minha cidade”, diz ele, que chegou a cursar jornalismo, mas hoje é flautista. Tiné está presente em várias mídias sociais e lança mão delas para difundir suas ideias. “As redes são a maior porta para o debate porque dão o maior e mais rápido feedback atualmente”, acredita. “Meu trabalho de formiguinha pode se converter em um trabalho do formigueiro todo muito mais rápido.” É com essa crença que eles constroem a própria história e transformam o mundo.  
foto: Rafael Hupsel)/ag istoé
fotos: montagem sobre foto de kelsen fernandes; 
Leo Caldas; Masao Goto Filho /ag. Isto É
Fonte: Telefónica Global Millennial Survey: Global Results

domingo, 13 de outubro de 2013

Dilma fica com maior parte dos votos se Marina desistir


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RICARDO MENDONÇA
FOLHA DE SÃO PAULO

Quem ficaria com a maior parte dos votos de Marina Silva (PSB), a mais competitiva adversária da favorita Dilma Rousseff, caso a ex-ministra realmente não concorra à Presidência no ano que vem? Resposta: Dilma Rousseff.
A constatação pode ser feita a partir do cruzamento de dados da pesquisa Datafolha realizada na sexta-feira.
Segundo a apuração do instituto, 42% dos eleitores que declaram voto em Marina passam a votar em Dilma num dos cenários em que a ex-ministra não consta como opção.
O senador Aécio Neves (PSDB) herda 21% dos votos marineiros. E o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) -aquele que teria o apoio formal de Marina na hipótese de sua ausência-, fica com 15%.
Aécio e Campos são considerados hoje os mais prováveis adversários de Dilma no ano que vem, já que têm interesse em concorrer e controlam seus respectivos partidos.
Numa disputa com esses dois nomes, Dilma seria reeleita presidente no primeiro turno com 42% dos votos totais. Aécio alcançaria 21%, Campos marcaria 15%.
Nas duas simulações feitas pelo Datafolha em que Marina aparece na disputa, a eleição iria para o segundo turno. Com até 29% das intenções de voto, ela é a rival mais forte de Dilma até o momento.
Marina, porém, fracassou ao tentar montar seu próprio partido a tempo de disputar a eleição de 2014. Sem a Rede Sustentabilidade apta, acabou filiando-se ao PSB de Campos, movimento considerado o mais surpreendente da cena política em 2013.
O Datafolha também investigou para onde vão os votos de Marina caso a disputa fique entre Dilma, Campos e o ex-governador de São Paulo José Serra, eventual candidato do PSDB no lugar de Aécio.
O padrão de migração dos votos marineiros nesse caso é parecido com o do cenário anterior. Dilma herda 40%; Serra, 25%; Campos, 15%.
Para chegar a esses números, o Datafolha ouviu 2.517 eleitores em 154 municípios do país, o que resulta numa margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
REPERCUSSÃO
Apesar de ter dominado o noticiário político dos últimos dias, a filiação de Marina Silva ao PSB é ignorada por mais da metade dos brasileiros.
Segundo o Datafolha, 48% dizem que ficaram sabendo do assunto. Só 14%, porém, afirmam estar bem informados a respeito. Outros 23% declaram-se mais ou menos informados. E 11% ouviram falar, mas admitem que estão mal informados.
Com isso, o maior grupo de eleitores (47%) não se sente capaz de avaliar se Marina Silva agiu bem ou mal ao aderir ao partido de Campos. Mesmo assim, muitos opinaram. Para 37%, Marina agiu bem; 17% acham que agiu mal.
A aprovação à nova filiação de Marina foi bem maior entre os homens do que entre as mulheres. Para 43% deles, Marina agiu bem. Entre elas, a aprovação foi de 31%.
Apesar do bom desempenho em intenções de voto, Marina tem baixa capacidade de transferência, na comparação com o ex-presidente Lula. Apenas 11% dos eleitores do Brasil dizem que votariam "com certeza" num candidato apoiado por Marina. Lula é o campeão absoluto por esse critério, com 38%.
Serra e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) também conseguem resultados melhores que o de Marina nesse ponto. Há 15% que votariam com certeza em alguém apoiado por Serra. E 12% no caso de FHC.
Aécio, porém, não deve se animar com isso. O motivo é a rejeição que os dois tucanos podem carregar. Quase 60% afirmam que não votariam num nome apoiado por FHC. Com Serra, o índice é de 54%.
Editoria de Arte/Folhapress

sábado, 12 de outubro de 2013

Mais de 2 mil políticos são flagrados recebendo o Bolsa Família


Flagrados tiveram o benefício bloqueado em fevereiro de 2013

Terra
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O Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) flagrou, por meio de um levantamento, 2.168 políticos eleitos que teriam recebido dinheiro do Bolsa Família, do governo federal.  De acordo com a pasta, o motivo do cruzamento de dados foi “garantir a qualidade das informações cadastrais e, consequentemente, a focalização do Bolsa Família”. Para isso, foi feito o cruzamento da folha de pagamento do programa de transferência de renda com a base de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Um decreto de 2004, proíbe qualquer político eleito e empossado de receber os benefícios do Bolsa Família. Quem foi flagrado neste ato, teve o benefício bloqueado em fevereiro de 2013. Após o bloqueio, o ministério enviou às prefeituras um questionário com perguntas relativas à situação dos políticos identificados.

A lei que versa sobre o tema diz que “será obrigado a efetuar o ressarcimento da importância recebida o beneficiário que dolosamente tenha prestado informações falsas ou utilizado qualquer outro meio ilícito, a fim de indevidamente ingressar ou se manter como beneficiário do Programa Bolsa Família”.

Como o bloqueio do pagamento do Bolsa Família dos 2.168 beneficiários que foram confirmados como políticos eleitos ocorreu no mês de fevereiro de 2013, o único pagamento recebido foi em janeiro deste ano.ISTOÉindependente

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

9 produtos que contém ingredientes vindos de animais (e você nem sabia)


Mas até no açúcar???
Veganos, abram os olhos! Para não consumir nenhum produto de origem animal, é preciso se preocupar com muito mais do que as letrinhas miúdas das embalagens de comida.
Artigos simples, como sacolinhas de plástico e pneus de bicicleta são feitos com algum produto de origem animal. Segundo a OFAC (Conselho de Pecuária de Ontário, no Canadá), dos animais presentes na alimentação humana, 45% é utilizado para fabricar artigos não-comestíveis.
Confira essa lista e aumente sua paranóia.
Sacolas Plásticas
Muitos tipos de plástico, inclusive as sacolinhas de supermercado, contém um ingrediente que diminui o efeito estático que o material pode causar: gordura animal. Mais um motivo para usar uma ecobag.
Pneus de carro e de bicicleta
Para se certificar que seu meio de transporte é livre de produtos animais, cheque se o fabricante utiliza a versão vegetal do ácido esteárico, usado para conservar a forma do pneu sob atrito intenso. Segundo lista do fórum de Malhação Vegana (em inglês), a Michelin é animal-free.
Cola de madeira usada em instrumentos musicais
Aparentemente, a cola feita com ossos e tecido conjuntivo cozidos é o melhor adesivo para fixar violinos, pianos e outros instrumentos musicais feitos de madeira. Além disso, ela também é usada pelos carpinteiros para colar mesas, portas, armários… Existe uma cola sintética, mas, para saber qual foi utilizada, só perguntando ao fabricante.
Biocombustível
Tá pensando que só existe álcool de cana de açúcar e biodiesel de óleo de mamona? Ele também pode ser feito com gordura de carne de boi e de frango. Bizarro.
Fogos de artifício
Além de fazerem mal para o meio ambiente (a fumaça polui o ar e carrega metais tóxicos, que contaminam o solo e a água), eles também têm ácido esteárico em sua fórmula – e não dá pra saber se eles são de origem animal ou vegetal…
Amaciante de roupas
Ele contém dihydrogenated tallow dimethyl ammonium chloride em sua fórmula. Esse derivado da amônia vem das ovelhas, cavalos e vacas. Melhor ficar com as roupas menos macias, caro vegano.
Shampoo e condicionador
Sim, eles contém mais de 20 ingredientes vindos de animais! “Pantenol”, “aminoácidos” e “vitamina B”, por exemplo, podem ter origem animal ou vegetal. A melhor forma de saber com certeza é procurando marcas veganas. O site Guia Vegano recomenda a marca Surya, que tem certificação e tudo.
Pasta de dentes
A glicerina, também presente no shampoo e condicionador, pode ter origem animal e vegetal. Tente marcas veganas, como a Contente, Condor, Welleda e Natura.
Açúcar branco e mascavo
Por essa você não esperava! Algumas marcas utilizam cinzas purificadas feitas com ossos no refinamento do açúcar. Há como fazer o mesmo processo com carbono granulado ou um sistema de troca de íons. Opte por açúcar cristal orgânico, se ficar na dúvida.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Brasil sente efeitos da crise, mas cria empregos, discursa presidenta



Após o Fundo Monetário Internacional (FMI) manter a projeção de crescimento da economia brasileira para 2013 e reduzir a de 2014, a presidente Dilma Rousseff defendeu que o País sente os efeitos da crise, mas tem optado por outra saída, ao criar empregos e garantir políticas sociais.

"Desde a eclosão da crise em 2008, a mensagem do Brasil tem sido clara: a saída da crise não virá pela redução da renda dos trabalhadores, pela diminuição do emprego formal, pela restrição às liberdades sindicais ou pela degradação das políticas sociais", afirmou Dilma, ao discursar na abertura da 3ª Conferência Global sobre Trabalho Infantil, em Brasília, nesta terça-feira, 08.

"Acreditamos e praticamos políticas consistentes com essa mensagem", prosseguiu Dilma, destacando que o Brasil tem sofrido também as consequências da crise. "Mas nós geramos mais de 1 milhão de empregos formais e, desde que tomei posse em 1º de janeiro de 2011, geramos 4,7 milhões de empregos."ISTOÉ

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Aumento no consumo de açúcar é um problema para a saúde


Ministério da Saúde discute com as empresas a redução do teor 

em alimentos industrializados

Agência Brasil
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Cáries, obesidade e diabetes. Essas são algumas das doenças que podem ser causadas ou agravadas pelo consumo do açúcar – substância cujo conceito de “excesso” varia conforme a pessoa. Embora o açúcar esteja presente em frutas (frutose) e no leite (lactose), é o produto processado, obtido a partir da cana-de-açúcar, que mais preocupa os especialistas em saúde. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) revelam que o setor público gasta, anualmente, R$ 488 milhões com o tratamento de doenças associadas à obesidade.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o consumo de açúcar livre, que inclui tanto a substância presente nas frutas e no leite quanto o produto processado, não chegue a 10% das calorias consumidas por uma pessoa adulta ao longo de todo o dia. O problema é conseguir medir isso, para não extrapolar o limite recomendável. Tanto que, segundo o Ministério da Saúde, a Pesquisa de Orçamentos Familiares, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre 2008 e 2009, revelou que 61% da população brasileira consomem açúcar em excesso.
Atento ao aumento da participação do açúcar na dieta brasileira e às consequências negativas do seu consumo excessivo, o Ministério da Saúde começou a discutir com as indústrias a redução do teor desse nutriente em alimentos industrializados. Em junho, a Coordenação-Geral de Alimentação e Nutrição do ministério organizou um seminário sobre o tema com a participação de representantes do governo, da indústria, da academia e de entidades profissionais, científicas e de defesa do consumidor. Ainda não há definição quanto às medidas que podem vir a ser adotadas.
Presidente da secção regional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia no Distrito Federal, a endocrinologista Monalisa Azevedo diz que, apesar do valor nutritivo, as pessoas poderiam abrir mão do açúcar. A eliminação, entretanto, não é necessária, nem há qualquer recomendação médica neste sentido, segundo explicou.
“O açúcar não é um alimento essencial. Podemos abrir mão de seu consumo porque seu nutriente, a glicose, está presente em uma série de outros alimentos compostos por carboidratos, como o arroz e o feijão. Agora, se ingerido em pequenas quantidades, o açúcar não é um veneno”, disse a médica. Ela alerta, contudo, que a quantidade recomendável varia de pessoa para pessoa, de acordo com fatores como a condição geral de saúde e a faixa etária de cada um.
Para Monalisa, é importante que os consumidores sejam informados sobre a adição de açúcar em alimentos industrializados e que as autoridades públicas, a exemplo do que já vem fazendo o Ministério da Saúde, estudem os níveis recomendáveis, como no caso do sódio.
“Este é um debate importantíssimo e há exemplos de produtos como alguns sucos em caixinha e refrigerantes que têm que ser melhor estudados. Sempre lembrando que não há, hoje, nenhuma orientação e que não prescrevemos a erradicação do consumo do açúcar, embora restringir a quantidade ingerida seja recomendável para todos – da mesma forma como recomendamos a redução dos produtos industrializados que, sempre que possível, devem ser substituídos por alimentos naturais, como frutas, fonte de açúcar natural”, explicou.
Já o historiador e escritor Fernando de Carvalho, é radical. Diabético, ele defende o fim do uso do açúcar para todos. Em seu libelo contra o produto, O Livro Negro do Açúcar, disponível na internet, Carvalho alerta que, com o tempo, praticamente todos os alimentos industrializados, até mesmo o pão francês, foram sendo modificados pela adição de açúcar, criando o que chama de “a era das doenças crônicas, metabólicas e degenerativas”. A finalidade foi torná-los mais agradáveis ao paladar contemporâneo. O problema é que nem sempre isso é informado aos consumidores.
Em entrevista à Agência Brasil, Carvalho apontou que, nos últimos anos, houve um avanço no tocante ao surgimento e a popularização de alimentos de baixo teor calórico, o que ajudou a despertar a atenção de muitos consumidores. De acordo com ele, contudo, há um movimento contrário.
“O poder econômico da indústria do açúcar é muito grande. Uma deputada chegou a propor uma lei obrigando as empresas a informar o risco de alguns de seus produtos causarem cáries. Não passou de uma proposta”, comentou Carvalho, que critica a falta de leis que controlem o excesso nos alimentos e informem o risco da substância para os consumidores.
“A rigor, o consumidor é quase um órfão de informações. Pelo contrário. O que há é um estímulo sem ressalvas por parte da mídia, sem nunca abordar os problemas de saúde e o custo humano e ecológico decorrente da expansão da área ocupada por canaviais – expansão que não atende só à produção de açúcar, mas também à de etanol”, analisou.